Lendo novamente a história do retorno israelita do cativeiro
babilônico, após a queda deste Império pelos persas, um tempo de dura servidão
que se prolongou por 70 anos, encontrei no livro de Esdras a menção de que primeiro
eles constroem um novo altar a Deus e só depois um novo templo: ‘Embora o povo
tivesse medo dos habitantes daquela região, reconstruíram o altar no mesmo
lugar original’(Esdras capitulo 3).
Só depois é que eles
erguem o novo templo. Primeiro o altar, depois o templo, nesta ordem. No altar
eles oferecem holocaustos, um tipo de oferta que queimava o animal por inteiro
não sobrando parte alguma para o sacerdote. Oferecimento integral da vida, do
corpo, alma e espirito. Depois vem o templo, um lugar de congraçamento e
unidade, mas estes dois elementos sem o altar são realidades impossíveis de
criar.
Porque templos não produzem nada que antes não seja
produzido no altar. Pode haver muita coreografia religiosa no templo que traga
aspecto de beleza e encanto, mas no final não resiste ao teste da vida invadida
que é pela pressão do urgente, pela aparência das coisas e a frustração das
relações frágeis. Estar em templos pode ser útil para a reputação exterior, mas
é ineficaz quanto ao caráter e essência. Jesus disse que em sua época não
ficaria pedra sobre pedra no templo, o que de fato aconteceu no ano 70 com as
tropas de Tito.
Mesmo que os discípulos tenham comentado que o templo era
sólido e que tinha beleza incomparável. Nada resiste ao teste da vida se antes
não se tem a experiencia do altar. Enquanto eles levantam novo altar oferecem suas
vidas ao Deus eterno todas as manhãs e todas as tardes. Celebram a Festa das
Cabanas, construções rusticas para onde se mudavam em certos períodos para
lembrarem que eram peregrinos neste mundo. Estar no altar ajuda na arte do
desapego, fundamental para nos preparar para toda e qualquer perda que venhamos
a ter ao longo do nosso desenvolvimento.
Por causa do comparecimento no altar eles ofertam para a
construção do templo com generosidade. Pagam os pedreiros com prata e compram
toras de madeira de cedro do Líbano que são trazidas pelas costas do Mar Mediterrâneo.
Mas existe ainda um detalhe no relato de Esdras que
impressiona. Sobre a construção de um novo altar, ele diz: ‘Embora o povo
tivesse medo dos habitantes daquela região, reconstruíram o altar’. O medo
seria grande empecilho a qualquer iniciativa de reconstrução. Porque o medo
paralisa a emoção e a atitude. O medo bloqueia a consciência e coloca um véu sobre
ela para que enxergue tudo distorcido. Mas, ainda que tivessem medo, levantaram
o altar.
Estar no altar, portanto, arranca todo e qualquer medo do
nosso coração. O altar, que nada mais é do que projeção de Deus, restaura a
capacidade de crer e fazer. João dirá depois que ‘o amor (de Deus) lança fora
todo medo’.
A cura dos medos se acha no comparecimento nosso, constante e diário,
no altar. Adão, pós fruto, se esconde com medo de Deus. Deus o retira detrás
das árvores, perdoa seu pecado e veste sua culpa. Existir com medo é perder o Éden.
Estar com Deus é viver no Paraíso.
Caleb Mattos.